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Termas
em Vals
Por Natacha Rena

É
bom dizer do risco de escrever sobre as Termas. Impossível a tradução
em palavras de uma sensação tão intensa como a de percorrer uma arquitetura
que é para a Experiência do corpo.
As Termas de pedra e vidro, projeto do arquiteto suíço Peter Zumthor,
existente desde 1996 numa pequena vila suíça chamada Vals, talvez seja
um bom momento, tempo e lugar para pensarmos a arquitetura atual como
Acontecimento Singular. Arquitetura concebida deliberadamente como um
caminho iniciático a serviço do corpo.’
A simplicidade é presente em suas formas ortogonais, em seus detalhes
descomplicados, criando efeitos de grande Intensidade espacial e com Intenção
de Criação do Novo. Somente tal arquitetura poderia se tornar, em tão
pouco tempo, um paradigma para a arquitetura contemporânea mundial.
Através
de um estudo minucioso das múltiplas possibilidades de iluminação e da
materialidade literal que um corpo arquitetônico pode vislumbrar, Zumthor
nos apresenta o[s] lugar[es] do Acontecimento singular.
Nas
Termas em Vals, o arquiteto transforma a luz em matéria, o edifício em
pura austeridade inebriante, uma labiríntica gruta iluminada.
Surgem
por toda parte, principalmente nos vãos de distribuição, rasgos entre
trechos da cobertura em concreto, que permitem que a luz transforme a
pedra bruta, material em manchas imateriais, “fantasmáticas”.
Em
algumas salas [de meditação, relaxamento, etc.] a luz do exterior penetra
pelas paredes laterais através de pequenas aberturas reticulares que estão
dispostas de forma a proporcionar enquadramentos precisos da paisagem
alpina, num jogo duplo interior-exterior, objeto-natureza.
A
ardósia, pedra abundante na região, utilizada para cobrir a maioria dos
telhados das casa locais, é o senso comum, nunca revisitado, relido ou
transformado com tanta expressividade, como o fez Zumthor. Esse material
representativo da tradição, da repetição do mesmo se torna, através das
Termas, uma Repetição do Outro, do Diferente. As pedras de filetes naturais
em estado bruto se tornam recortes milimetricamente detalhados pelo autor,
materialidade muitas das vezes domesticada, recolocada num novo lugar,
o da exatidão que o desenho racional e obcecado do arquiteto propõe, através
de um jogo ilusório, pois, aparentemente, as pedras nos apresentam sobrepostas
aleatoriamente.
Raras
vezes, as pedras estão presentes em estado bruto, mas quando utilizadas
dessa forma, surgem espaços e lugares específicos onde a aridez da natureza
se mostra cruel, atingindo os corpos dos menos atentos. E é aqui que pretendemos
dizer da relação arquitetura-corpo, objeto-sujeito, matéria-luz, do mundo
do fora, da Exterioridade que nos afeta. Corpo arquitetural, presença
do mundo artificial, Criação humana que nos impõem uma desaceleração,
afecção, entre o processo de percepção e ação. É preciso a presença do
corpo-cérebro-corpo humano em confronto com o corpo arquitetônico; corpo
do sujeito atravessado, cindido pelo mundo da Exterioridade. As Termas
são uma Experiência sensível-cognitiva onde o corpo nos força pensar e
vice-versa.
A
pedra surge reciclada em um cubículo de concreto vermelho que tem refletido
sobre sua superfície pequenas sombras de ervas aromáticas em movimento
constante provocados pelos nossos próprios corpos ao se movimentarem na
água. Mais uma vez o efeito de luz, agora artificial, que vem de debaixo
da água, vem conduzir essas imagens-percepções, que transformam um simples
lugar de diversão turística em uma experiência singular.
Em outros sítios a luz quase ausente se torna escuridão espessa, completa,
como se o tivessem envolvido em panos negros - a sauna tumular, esfumada,
tem presente túmulos alinhados, caixas literais de granito preto nos oferecendo
um lugar para o relaxamento mortuário. Nos tornamos devir-morte deitados
sobre os monolitos negros.
A
presença de corredores labirínticos também comporta passagens claustrofóbicas
que, para atravessá-las, é preciso estar por alguns segundos por baixo
da água, sem respiração, momentos de sofreguidão, angústia provocando
um maravilhoso Instante de prazer e vida ao chegar ao outro lado do túnel.
Chegada num lugar onde os ecos das vozes, muitos sons, estranhos, em mil
línguas, conformam uma espaço-babel que de tão pequeno, encosta indistintamente
corpos nunca dantes conhecidos.
As
Termas provocam em nós, mesmo quando céticos e materialistas, uma ambigüidade
intimidadora entre o sagrado e o profano: estamos entre a luz azulada,
que vem do alto e uma luz espessa de vermelhidão vindoura de um lugar
quase arqueológico.
Num
espaço cubicular está presente uma caldeira, através da qual somos levados
descomedidamente a beber na fonte do desconhecido. Um copo de cobre está
pendurado por uma corrente para dentro do poço profundo nos oferecendo
a possibilidade de uma atitude profana, devir-homem ancestral.
A
ortogonalidade que desenha as Termas se faz num processo não lógico, de
uma geografia lúdica: se perder para se encontrar através de múltiplas
possibilidades de passagens.
Ortogonalidade
das Termas existe como presença simultânea, dentro do tempo homogêneo,
igual e diferente do Modernismo racional e hierarquizado, do Minimalismo
norte americano e de outras manifestações artístico-culturais, que mantêm
uma relação de vizinhança com a obra em questão. Aqui há o Retorno do
Diferente, de Outrem.
As
Termas de Zumthor nos oferecem os mil platôs de possibilidades sensíveis-cognitivas,
de experiências rizomáticas do espaço transversal, desierarquizado, permeado
de não lugares. Espaço não-racional, não-funcional, a não ser que a função
seja o deslocar do corpo no espaço, a mente para fora de si, ou seja,
o corpo que força a pensar, criar. O lugar do estar entre. O lugar do
tempo liso, do círculo sem fim, linha sem retorno do mesmo. O corpo caminha
para o desconhecido, decide por onde iniciar sua experiência. A surpresa
pode estar em cada porta, parede, corredor, escada, passagens secretas
ou simplesmente espaços específicos e literais. O Mínimo nos oferendo
o máximo através da Intenção de Criação do Novo.
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