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Os
e-books assustam mas não ameaçam
Por Alemar Rena

Italo
Calvino começa seu livro "Se um viajante numa noite de inverno"
da seguinte forma: "Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino,
Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos
os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no infinito.
É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado.
[...] Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado.
[...] Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira,
num pufe. Numa rede, se tiver uma."
Ultimamente,
um assunto no mundo cibernético, acadêmico e do público de aficionados
por livros vem gerando enormes polêmicas e controvérsias. Trata-se do
chamado e-book ou e-livro, que significa livro
eletrônico. No entanto, do meu ponto de vista, a única possível controvérsia
em relação à questão é se devemos ou não ser a favor da tecnologia.
Parece-me
um tanto previsível que o livro impresso como meio de entretenimento não desaparecerá
e nem deixará de ser o formato padrão dos livros por uma razão simples
e que se pode perceber ao ler o trecho de Se um viajante numa noite de
inverno apresentado acima. Para os adeptos à literatura pela literatura,
para aqueles que vêem no livro uma fonte de conhecimento, mas com o prazer
que a literatura proporciona, não há razão para se sentar na frente de
um computador e ler duzentas páginas. Não teria graça. É desconfortável,
cansativo e pouco prático. O que nos fascina em um livro é exatamente
o fato de ele ser tão rústico, prático, independente de quase qualquer
aparato tecnológico para existir, e ao mesmo tempo tão sofisticado e poderoso.
Talvez
pudéssemos argumentar que o livro na tela do computador traz vantagens
como a consulta instantânea de palavras desconhecidas pelo leitor ao usar
um dicionário eletrônico. Sim, seria interessante, mas não basta. Ou senão coisas do tipo: seria interessante ler o mais recente conto ou mini romance do
Stephen King enquanto se navega pela internet. Talvez hoje fosse uma idéia
interessante, mas muito em breve não será necessário esperarmos para fazer
downloads de páginas, pois a internet será instantânea e aí o tempo ocioso
entre downloads desaparecerá.
Então,
qual seria a verdadeira utilidade do livro eletrônico? Livros
de referência, catálogos, enfim, toda aquela literatura que exige e implica
consulta. Viria ele para complementar o livro convencional.
Há
hoje no mercado aparelhos portáteis que podem carregar até quarenta livros
de uma só vez e aí, em determinadas situações, os e-livros seriam também
de muita utilidade, como por exemplo em viagens. Nesse caso, seria interessante
usá-lo também para ler romances, etc. por uma questão de praticidade. (Hoje em dia os próprios notebooks podem desempenhar esse papel).
Pode
se concluir que somente por razões filosóficas alguém, a priori contrário ao desenvolvimento de novas tecnologias, poderia ser contrário
ao e-livro; a oposição se daria não pela ameaça que ele viria a representar
para o livro convencional, mas por preconceito em relação a "mais uma bugiganga eletrônica."
Acredito mesmo que o livro eletrônico não ameaça a existência do livro convencional.
Pelo contrário, creio que a convivência entre o e-livro e o livro convencional
será amigável e complementar, assim como se deu e se dá entre o cinema e vídeo
e o rádio e a televisão.
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