>> Nota: Este texto foi publicado no site http://www.indierock.com.br, editado
pelo próprio autor, em 3 de março de 2004. Resolvemos
re-publicá-lo aqui [graças à gentil
autorização do Bruno Ruler] como forma de agradecimento, embora atrasado, à produtora MotorMusic, que teve grande influência na cena de música independente
em Belo Horizonte.
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A notícia já circulava por BH, mas
achei melhor esperar o anúncio oficial para comentar aqui.
Pois ei-lo: após 6 anos de atividades, a difusora musical
Motor Music resolveu fechar as portas em definitivo.
A Motor, que também já foi loja de discos e distribuidora,
vinha mantendo apenas a atividade de produtora desde 2002. Como
tal, foi a responsável pela vinda ao país, nos últimos
anos, da maioria das bandas relevantes que por aqui passaram.
Ainda me lembro de avistar, voltando do colégio, um cartaz
anunciando um show do Superchunk. Pensei comigo mesmo, na hora:
com certeza deve ser algum show de uma banda cover ou alguma coisa
do tipo. Eu estava errado...
E os sustos não pararam por aí. Fugazi, Yo La Tengo,
Jon Spencer Blues Explosion, Tortoise, Cat Power, And You Will Know
Us By the Trail of Dead, Trans Am, Man or Astro-man?, Luna, Atari
Teenage Riot... São inúmeras as atrações
de peso que aportaram no Brasil por iniciativa do Jeff e do Boffa,
cabeças da empresa.
Quem mora em Belo Horizonte, mais do que ninguém, sabe o
quanto o idealismo e a coragem do pessoal da produtora fez bem à
cidade. O Eletronika, um dos vários festivais organizados
pela Motor, acontece todo ano em Belo Horizonte e é, disparado,
o evento musical mais importante por aqui. A boa notícia
é que, mesmo com toda a tormenta, o Eletronika não
deixará de ser realizado.
Até soubemos compreender, mesmo que a duras penas, quando
alguns dos eventos passaram a ir direto para São Paulo ou
outras praças, sem passar por BH. O fato é que o público
local, muitas vezes, simplesmente não correspondia. Como
o Boffa me disse uma vez, em momento de desabafo, isso aqui é
"roça iluminada"...
Mas não há do que reclamar. Vai a produtora, fica
a história. Seremos muitos que, no futuro, lembraremos com
saudosismo dessa época de shows, descobertas, e, de certa
forma, inocência. Não é apenas a Motor que está
indo, mas a forma como nos relacionamos com a música está
mudando também.
Só em meados dos anos 90 é que o acesso gráfico
à Internet chegou ao Brasil, época em que também
começou a popularizar-se, ainda que lentamente, o formato
mp3. Eram anos de descobertas fenomenais quase diárias, conhecia-se
uma banda "nova" e excepcional praticamente todo dia -
afinal, eram décadas de informação para correr-se
atrás. E finalmente, pela primeira vez na história
do país, pudemos acompanhar alguns shows de grupos em ascensão
no exterior antes de que entrassem em decadência.
Menos de 10 anos depois, tudo é diferente. Todo mundo conhece
tudo, e o antigo guru musical foi substituído pelo All Music
Guide. Os tocadores portáteis de mp3 se popularizam, sendo
possível andar por aí com centenas de discos dentro
do bolso. Foi-se a inocência, e provavelmente para o bem,
já que, de uma forma ou de outra, temos hoje no país
um público bem-informado muito mais expressivo.
As mudanças vieram para ficar. E ficará, acima de
tudo, o exemplo de que é possível realizar eventos
decentes de forma competente, mesmo aqui no velho e bom Brasilzão
- verdadeiro rincão da civilização em que cultura,
infelizmente, ainda é artigo de luxo reservado a uma pequena
minoria. |