>>> O arquiteto Marcelo Maia propõe uma forma curiosa de tarifar os corpos (hóspedes) nas cidades levando-se em conta seus deslocamentos, seus estacionamentos e seus abastecimentos. A idéia é experimentar uma forma diferente e divertida de se entender a economia urbana, subvertendo completamente as noções tradicionais e lineares de compra e venda.
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[DT] = [dinâmicas temporárias]
A diária
urbana é calculada levando-se em consideração
3 formas de hospedagem: deslocamento [km], estacionamento [horas]
e abastecimento [r$]. A socialização entre os hóspedes
deste sistema urbano pode se dar em qualquer uma das formas de hospedagem
modulados em encontros e desencontros.
Os
encontros são os momentos onde as relações
têm um fim que vão além da instantânea e efêmera
hospedagem. Sendo assim, solicitam do hóspede deste sistema
a manutenção da estadia. Mesmo que a hospedagem não
possa ser mantida em virtude do deslocamento, o encontro mantem-se
na memória. Sendo assim, a repetição destes
encontros, quantas vezes forem possíveis, desejados e/ou
necessários é a manutenção de uma hospedagem
específica.
Por
outro lado, os desencontros não possuem memória. Eles
acontecem quando a hospedagem não teve um fim específico
tendo um fim operacional e/ou habitual.
O deslocamento
refere-se à amplitude de apreensão do sistema urbano.
O estacionamento
refere-se aos momentos de repouso no sistema. São pausas
essenciais para produção e/ou recuperação
ocorrendo na maioria das vezes voluntariamente. Entretanto o estacionamento
pode ser imposto pelo sistema urbano num momento de desequilíbrio,
insustentabilidade e/ou saturação. Neste caso o hóspede
urbano é involuntariamente estacionado.
O abastecimento
refere-se a todas as formas de sustento da atividade urbana que
se dá: por recursos energéticos para os componentes
mecânicos, por alimentos que fornecem energia vital aos seus
hóspedes, pelos bens de todas as espécies que instrumentalizam
o urbano e pela cultura que dinamiza o sistema. O abastecimento
se refere basicamente ao custo e a sustentabilidade do sistema.
Para
se calcular o valor de uma diária num sistema urbano deve-se
adotar a seguinte fórmula: multiplica-se o deslocamento [km]
pelo estacionamento [horas] e pelo abastecimento [r$].
Km
x horas x r$ = km.hs.r$.
Considerando
que tempo possui um valor monetário dentro do sistema produtivo
urbano, logo hs e r$ podem ser considerados como uma variável
temporal. hs.r$ = tempo [T]. Se km refere-se a distância que
inclui o deslocamento que é dinamizador do sistema adotaremos
a variável [D].
Logo nossas diárias serão calculadas em [DT] = [dinâmicas
temporárias].
Pela
fórmula podemos perceber que as hospedagens com maior amplitude
de deslocamento tendem a ser mais caras que as hospedagens com menor
ou nenhum deslocamento. O fator deslocamento x tempo também
influencia no valor final da diária.
Ou
seja, as diárias mais caras são aquelas que possuem
o maior deslocamento num determinado período. Esta constatação
não é válida para os indivíduos que
tem a sua forma de produção no deslocamento, ex: motoristas
de ônibus, caminhoneiros, pilotos e comissários de
bordo. Neste caso, estes componentes terão um valor de abastecimento
igual a zero o que resultaria em um DT nulo; ex: [Xkm x Yhs x 0r$]
[0,0DT]
A forma
estacionamento é o que proporciona uma maior oscilação
da [DT] e precisa ser tratado com cautela para não reduzir
a eficiência do sistema. Geralmente os estacionamentos mais
próximos do abastecimento e com o maior número de
possibilidades de deslocamento tendem a ser sobre taxados. As taxas
raramente dizem respeito à qualidade, conforto e/ou tamanho
das vagas. Apesar dos anunciantes dizerem o contrário, não
se deixe enganar.
Quanto
à forma abastecimento, as taxas não variam somente
de acordo com o volume das cargas adquiridas. O que se torna uma
sobretaxa no abastecimento e reflete diretamente no valor da diária
urbana é quando o abastecimento se sobrepõe a umas
das outras formas de hospedagem, ou seja, quando temos o abastecimento
junto com o deslocamento ou o abastecimento com o estacionamento
ou até mesmo os as três formas simultaneamente. Apesar
das promoções anunciadas pelos fornecedores, o valor
do abastecimento raramente diz respeito à qualidade ou a
quantidade de carga fornecida, mas à sobretaxa gerada pelo
deslocamento e estacionamento.
Uma
diária urbana – estudo de caso: Belo Horizonte >
São Paulo > Coronel Fabriciano em 24hs
Domingo,
belo horizonte, 22:25.
O auto falante do terminal rodoviário
de Belo Horizonte anuncia: “atenção senhores
passageiros, faltam 5 minutos para a próxima partida, ocupem
seus lugares”. Sendo eu um dos “senhores passageiros”,
dirijo-me ao ônibus para ocupar o meu lugar. Antes, cumprimento
o motorista do ônibus com uma boa noite e ele me retribui
- “tenha uma boa viagem” - no mesmo tom que ele repetiu
para os 36 passageiros daquela noite, para os 252 da semana, para
os 1.008 do mês e para os 12.096 do ano. Ao ocupar o meu lugar,
identifico visualmente o meu companheiro do assento ao lado, vamos
dormir e passar uma noite juntos praticamente com a mesma certeza
de que nunca mais nos encontraremos novamente, então é
melhor dormir profundamente durante toda a viagem e poupar o tempo
com eventuais conversas. Não se trata de uma antipatia, é
apenas uma preguiça de fazer “amigos descartáveis”
(amigos descartáveis: amigos que você tem por um período
de tempo necessariamente conveniente, geralmente durante um momento
de espera num deslocamento e/ou estacionamento e que provavelmente
nunca mais será visto. [570km x 8hs x 105r$)] [478.800,00DT]
São
Paulo, segunda, 05:55.
Deixo o ônibus ainda sem a perfeita consciência de onde
estou (um perfeito candidato para ser assaltado) e caminho por entre
fluxos de pessoas em “motion blur” . Por 5 minutos não
consigo enxergar bem e ando entre vultos. Quando consigo enxergar
perfeitamente já estou na estação do metrô.
Como já havia comprado o bilhete na semana anterior não
tive que enfrentar a fila dos guichês. Entro no vagão,
ocupo um lugar, encosto a cabeça na bolsa e durmo mais um
pouco. [11km x 0,3hs x 2,10r$] [6,93DT]
6:35,
São Paulo, estação do metrô Ana Rosa.
Acordo pela segunda vez em São Paulo. Desta vez faço
uma pequena caminhada até em casa. Casa local de encontro.
Local onde se estacionam algumas memórias referentes ao abastecimento
e referenciam o deslocamento. [1km x 0,2hs x 0r$] [0,00DT]
7:00,
São Paulo, casa.
Dormir, banhar, comer, conversar, ler jornal. [0km x 1hs x 10r$]
[0,00DT]
8:45,
São Paulo, estação do metrô Ana Rosa.
O sistema de metrô da cidade de São Paulo transporta
1,7 milhões de pessoas por dia. Isto não é
muito, trata-se de um sistema ainda muito pequeno perto da demanda
existente. Nova York, por exemplo, com uma população
inferior a São Paulo, possui um sistema que transporta mais
de 9 milhões por dia.
Atualmente
a prefeitura conta com duas frentes de expansão do sistema
com a ampliação da linha 2 e 4, esta última,
com uma previsão de transportar um adicional de quase 1 milhão
de passageiros/dia.
Eu e mais 1.699.999 paulistanos nos dirigimos para um “desencontro”
coletivo. As conversas devem ser evitadas, trocar olhares pode ser
constrangedor. Ler um livro ou olhar para o sistema de ventilação
no teto do trem é uma boa alternativa. [10km x 0,6hs x 3,80r$]
[22,80DT]
9:25,
São Paulo, FAU, rua Maranhão.
Aula na pós-graduação, as mesmas pessoas o
mesmo encontro. Conversas, idéias e café no intervalo.
Uma hospedagem que fica na memória e permanece. [0,3km x
4hs x 4r$] [4,80DT]
12:42,
Consolação, ônibus, metro, táxi.
O corredor de ônibus que a prefeitura de São Paulo
fez no eixo Consolação-Rebouças é incrível.
Os ônibus correm em pistas exclusivas no centro da avenida
e os carros ficam nas margens sem poder trafegar pela faixa preferencial.
Se alguém quebrar a regra será multado imediatamente.
O curioso, é ver a coisa funcionando nos horários
de pico, os ônibus passam e os carros ficam, é como
se fosse uma punição para quem não usa o transporte
público. Um ônibus que antes gastava 40 minutos para
ir do Makenzie à Faria Lima agora leva de 20 a 25 minutos
neste “passa rápido”. Para os carros, continua
a mesma coisa. [10km x 1,2hs x 20r$] [240,00DT]
O engarrafamento
é uma das formas de hospedagem mais freqüentes de uma
metrópole como São Paulo. É uma hospedagem
que combina a forma de deslocamento com a do estacionamento num
modo de desencontro coletivo. O deslocamento [km], uma distância
relativamente pequena nestes casos, quando multiplicada pelo período
de estacionamento[horas] e pelo abastecimento [r$] atingem valores
acima da média. Exemplo: se eu tivesse optado por fazer todo
o trajeto de táxi sem usar o metro e o ônibus a tarifa
seria de [10km x 2hs x 48r$] [960,0DT], 4 vezes mais.
14:07,
Congonhas, sala de embarque.
É incrível o quanto as companhias aéreas “sentem
prazer em ter você como passageiro”. A sala de embarque,
que pode ser chamada “sala de passagem”, é uma
seqüência de portões, cada um com um destino programado.
Sintetizando, é um ambiente dentro do sistema urbano com
várias portas. Numa destas vamos entrar e ao fim de uma caminhada
proposta pelos comissários, após um período
de espera assentado em desconfortáveis poltronas enfileiradas
em um ambiente tubular, somos convidados novamente a caminhar e
a sair por uma outra porta a muitos de quilômetros de onde
isto tudo começou. É uma hospedagem de passagem. É
incrível. [0km x 0,1hs x 14,7r$] [0,00DT]
55
minutos, vôo, Gol 1706.
Estacionado em um vôo simultâneo a um grande deslocamento
acaba gerando uma tarifa muito alta, não somente pela simultaneidade
de estacionamento, deslocamento e abastecimento (serviço
de bordo), mas pelo tamanho do deslocamento. Mais uma vez surge
a oportunidade de se fazer um “amigo descartável”.
Por opção leio um livro. [570km x 1hs x 260.0r$] [148.200,00DT]
15:12,
Belo Horizonte, Pampulha.
Resolvi fazer uma caminhada até a Avenida Antônio Carlos
Para pegar um ônibus. No trajeto fui trazendo a memória
minhas últimas horas e tentei lembrar da fisionomia das pessoas
com quem desencontrei. É incrível, faça este
exercício também. Não tenho a menor idéia
de quem me vendeu o bilhete do metrô, quem me serviu um café
na padaria ou se o caixa do supermercado era homem ou mulher...
nada. Realmente os desencontros são encontros a serem esquecidos.
[1km x 0,2hs x 0r$] [0,00DT]
15:30,
avenida Antônio Carlos, ônibus. [8km x 0,5hs x 1,4r$]
[5,60DT]
16:20,
supermercado.
Passo rapidamente pelo supermercado próximo de casa para
comprar alguma coisa para comer. [0,2km x 0,3hs x 35r$] [2,10DT]
16:58,
casa, lanche.
Ligo a televisão para assistir um pouco do noticiário.
Saber o que acontece, abastecer-se de notícias do sistema
urbano é essencial para se estabelecer uma memória
coletiva de fatos que ninguém presenciou, mas que todos podem
a qualquer momento utilizar numa conversa desencontrada ou num encontro
sem assunto. [0km x 2hs x 15r$] [0,00DT]
18:55,
táxi, av. Afonso Pena.
Um taxista muito simpático puxa uma conversa. Aí podemos
usar nossa memória coletiva para comentar e relembrar momentos
que nunca presenciamos. Quando a memória coletiva não
é o tema da conversa, assuntos particulares e específicos
são abordados numa conversa que na maioria das vezes se torna
desagradável ou inconveniente. [1,4km x 0,1hs x 10r$] [1,4DT]
19:30,
ônibus, ida para Coronel Fabriciano.
É sempre o mesmo motorista e eu sei o nome dele pelo crachá
com uma foto, uma foto do motorista, dele mesmo. [254km x 3hs x
37r$] [28.194,00DT]
22:30,
segunda, Coronel Fabriciano, terminal rodoviário.
Fim de mais um deslocamento. Vou dormir um pouco mais, desta vez
numa cama, num hotel. Amanhã tenho um encontro, vou trabalhar
cedo. [0km x 0,2hs x 60r$] [0,00DT]
Enfim,
esta diária urbana seria tarifada em 655.477,63 DT com uma
modulação de 25% de encontros e 75% de desencontros.
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