Um dos principais sub-gêneros da ficção científica moderna, o cyberpunk surge no final dos anos 70 como uma forma de criticar o avanço da tecnologia, de maneira a quase prever - ou até inventar - a manifestação cultural dos hackers. O pensamento cyberpunk descreve o futuro como sombrio e altamente robotizado, criando um novo dilema para a sociedade: o homem e a máquina podem coexistir como seres pensantes? A máquina pode ser pensada como um ser humano, com sua subjetividade e caráter próprio?
Do trauma à cultura
Na Segunda Guerra Mundial aconteceria o grande trauma moderno japonês: aviões americanos jogariam duas bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, para forçar o Japão a render-se, e também como retaliação ao ataque japonês a Pearl Harbor. Hoje este episódio está indiretamente ligado à produção cultural de ficção científica, mais precisamente ao cyberpunk.
Tome-se como exemplo dessa ligação indireta o mangá (que posteriormente se transformou em um longa-metragem de animação) Akira, de Katsuhiro Otomo. A história se inicia em 1992, com a explosão de um novo tipo de bomba sobre a área metropolitana de Tokyo. Nove horas depois, a Terceira Guerra Mundial se iniciaria, e o mundo começaria a se transformar. Uma transformação abrupta, súbita e mortal.
São notáveis as semelhanças entre as duas bombas. A bomba atômica, em plena Segunda Guerra, era um novo tipo de bomba e estava relacionada a uma reação: a rendição do Japão. Já a bomba de Otomo estaria relacionada ao início da Terceira Guerra. Trinta e oito anos depois, de acordo com a estória, o Japão estaria novamente superdesenvolvido e seria uma potência militar e econômica. Excluindo-se a parte da potência militar, podemos dizer que o boom da economia japonesa seria evidenciado três décadas após a destruição de Hiroshima e Nagasaki. Seria apenas uma coincidência?
Coincidências à parte, é nesse contexto que o cyberpunk se encaixa. Em Akira existe a desinformação e a informação escondida pelo governo, e os punks querem tornar pública essa verdade. Assim como Prometeus roubou o fogo e o levou à humanidade, a missão do hacker e do espião na trama cyberpunk é justamente roubar a informação que é secreta ao resto do mundo e assim tirar a sociedade da ignorância a ela imposta.
Mas o grande diferencial entre, por exemplo, Akira e Blade Runner, de Ridley Scott, é como esse futuro foi alcançado. No caso do filme americano o futuro é possível sem um evento imediatista que o torne possível. No ano de 2019 existe a inteligência artificial, sendo essa uma invenção natural da humanidade, sem bombas, sem traumas. Já no mangá japonês, o desenvolvimento está diretamente ligado à explosão de uma bomba em 1992. O ano é 2030 e Tokyo foi reconstruída passando a se chamar Neo-Tokyo, mais uma alusão possível à bomba atômica. Essa mudança do nome da cidade de Tokyo será visível também em diversas outras obras japonesas, como o mangá Neon Genesis Evangelion, e se tornará um cenário freqüente do pensamento cyberpunk desse país.
Outra demonstração dessa lógica da transformação pode ser o mangá citado acima Neon Genesis Evangelion. Nessa história, uma bomba explode na Antártida, causando o derretimento da calota polar e o conseqüente desequilíbrio ecológico do planeta. Cidades submersas, erradicação de grande parte da fauna terrestre, e o Japão perdendo boa parte de seu terreno. Dentro desse contexto, uma trama política toma parte e a população não tem acesso à informação verdadeira, somente às versões oficiais do governo. Irrompe então o novo Gênese a partir dessa explosão na Antártida (que não era realmente uma explosão).
Ao se comparar os mangás japoneses aos comics (revistas em quadrinhos de heróis) americanos, podemos verificar que a grande maioria dos heróis ocidentais antigos, criados até os anos 80 (Capitão América, Demolidor, Homem-Aranha), existem no mundo contemporâneo, e não sofrem influência da lógica da transformação. A partir dos anos 80, com a criação de heróis vindos do futuro (Bishop, Cable, a série 2099) essa lógica foi a eles incorporada, não só nos quadrinhos mas também no cinema. Não se pode, portanto, pensar que os japoneses e os americanos somente produzem obras de ficção científica pós-apocalípticas ou não. A apropriação existe, e apesar dos japoneses utilizarem muito mais a mutação da sociedade contemporânea em sociedade tecnológica, é comum se ver o mesmo nas produções ocidentais.
No filme Matrix, por exemplo, existe a influência escancarada de produções japonesas, como Ghost in the Shell, uma série animada sobre robôs que desenvolvem sentimentos próprios. Na animação japonesa, os robôs se conectam a redes a partir de conectores disponíveis em suas nucas, assim como no filme americano. E, genericamente falando, nas produções japonesas existe o questionamento da informação a partir de uma lógica futurista e super-desenvolvida. No entanto, existe uma diferença, uma inversão em cada filme que os difere das outras produções do gênero em seus países: Matrix é pós-apocalíptico. Ghost in the Shell não é.
O "Cyberpunk Japonês" é uma manifestação válida para a concepção (extremamente japonesa, por sinal) de que é necessário um trauma, uma desconstrução da realidade vigente para que o futuro chegue em toda a sua potencialidade. Ainda que o cinema ocidental utilize muito dessa concepção em seu processo criativo não podemos negar que ela está muito mais profundamente enraizada no pensamento japonês, portanto, sendo uma inegável expressão nacional daquele país, assim como os samurais e o harakiri.
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