| >> Bruno Martins investiga a tipografia popular, marcas que invadem paredes, muros, edifícios, objetos, pessoas, chãos em qualquer local onde exista uma demanda de comunicação: estabelecimentos comerciais, beira de estrada, encruzilhadas, entrada de residências, praças, parques, mercados, banheiros públicos, ETC.
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"Nuvens
de letras-gafanhotos, que já obscurecem o sol do suposto
espírito aos habitantes das metrópoles, tornar-se-ão
cada vez mais espessas com a sucessão dos anos."
W.
Benjamin
Na
cidade onde os muros invisíveis e a velocidade das redes
aprisionam e aceleram, o caminhar desinteressado do flâneur
parece distante. Os espaços públicos nos aparecem
como espaços esvaziados, espaços limite, quase-lugares
que seguem, contudo, habitados. Os vestígios de uma apropriação
(e de uma reapropriação) destes espaços resistem
e subsistem às suas manifestações institucionais.
As placas indicativas e de sinalização das ruas, as
fachadas comerciais, as vitrines, os outdoors, as empenas, as faixas
(e muitas outras) compõem paisagens tipográficas nos
espaços da cidade. A sinalização e a publicidade
seguem não só um conjunto de leis –muitas vezes
desrespeitado– que determinam seu posicionamento no espaço,
mas também obedecem a regras de linguagem que preservam sua
eficácia comunicativa. Como exemplo podemos citar a razoável
estética da legibilidade “universal” das tipografias
utilizadas nas placas de sinalização e dos transportes
urbanos, ou o conhecido limite de doze palavras que impõem
uma necessária rapidez à leitura dos títulos
de outdoors.
Se
a fascinante negatividade dos graffiti e das pichações,
com seus limites difusos, suscita discussões diversas e apaixonadas,
propomos aqui voltar o nosso olhar para outras manifestações,
muitas vezes mais discretas e, certamente, desvinculadas de conteúdos
culturais ou identitários declarados. Ao se diferenciar das
estratégias da publicidade e da rebeldia estetizada, se misturam
e se contrapõem utilizando uma tática onipresente
mas, paradoxalmente, fugaz. A estas manifestações,
devido ao seu caráter democrático de produção
–potencialmente são realizadas por qualquer um–
vamos chamar tipografia popular. São marcas que invadem paredes,
muros, edifícios, objetos, pessoas, chãos. Em sua
maioria produzidos à mão, surgem em qualquer local
onde exista uma demanda de comunicação: estabelecimentos
comerciais, beira de estrada, encruzilhadas, entrada de residências,
praças, parques, mercados, banheiros públicos... São
pequenos grafismos, avisos, pinturas, placas, inscrições,
advertências, recados, anúncios de produtos ou serviços;
inscrições que têm por objetivo sinalizar, anunciar,
demarcar, avisar; ou seja: comunicar algo. Não existem regras
que determinam seu estilo ou sua posição no espaço.
Se sua localização pode parecer aleatória,
devemos nos lembrar que uma demanda de comunicação
sempre está orientada para alguém, para o outro. Diferente
das herméticas pretensões de demarcação
territorial presentes nos traços de assinatura dos chamados
pichadores, estas inscrições tem sua razão
de ser no próprio comunicar, estão ali para serem
lidas.
Seria
uma tarefa extensa e ingrata enumerar e indicar as técnicas,
suportes e estilos destas manifestações, uma vez que
suas táticas de ocupação do espaço,
tampouco suas opções de linguagem, não se pautam
por uma lógica apreensível. Mesmo assim, ainda de
forma muito geral, é possível identificar pelo menos
dois momentos distintos da tipografia popular: a) as placas produzidas
por pintores-letristas profissionais; b) as placas e inscrições
produzidas por anônimos, ambulantes, comerciantes etc.. Enquanto
no primeiro percebemos uma regularidade interna maior, devido à
habilidade do “profissional”, no segundo caso temos
uma maior imprevisibilidade, tanto no desenho quanto na disposição
dos elementos tipográficos. Contudo, em ambos os casos as
técnicas de produção são manuais e,
muitas vezes, precárias. Sendo assim, o desenho de uma letra
nunca será idêntico à outra, que se repete mais
à frente, ou seja, mesmo quando se percebe uma continuidade
no estilo, ou uma maior habilidade técnica, a familiaridade
é improvável. Estes desenhos de letras e suas composições
geralmente são diferentes aos quais estamos habituados, ou
seja, se configuram para nós como desenhos excêntricos.
Sabemos que o desenho das letras, a composição, o
espaçamento entre as letras e entre as linhas, além
de todas as variações que compõe a tipografia
(tamanho, contraste, cor etc.) são elementos determinantes
para a produção de sentido. O significado de um determinado
texto não é dado apenas por seu conteúdo lingüístico,
mas por sua imagem, por seu desenho, por sua tipografia. Ao explicitar
a imagem da letra em seus desenhos e composições singulares,
a tipografia popular obriga o leitor a rearranjar constantemente
seus parâmetros e expectativas de leitura, promovendo uma
atividade criadora durante o processamento o texto.
Circulam
na rede e-mails cujos títulos de assunto (“Noça
Lingua Portugueza”) revelam a intenção de seus
autores. Se tratam de diversas imagens de tipografia popular onde
são ressaltados os tropeços gramaticais e ortográficos
destes escritores anônimos. Entretanto, o fascinante aí
não são os desvios da língua. Uma leitura superficial
destes grafismos populares poderia colocá-los como exemplos
de curiosidades gramaticais ou transcrições da linguagem
oral, entretanto, esta análise está longe se aproximar
de todas as suas potencialidades. Devemos tomar como verdade o pressuposto
de que nenhum texto diz apenas aquilo que desejava dizer. Sendo
assim, podemos aceitar que a complexidade em que se insere a tipografia
popular está direta ou indiretamente ligada ao seu contexto
de inserção. Diferente da complexidade frasal, como
na literatura, o que temos na tipografia popular é uma complexidade
espacial, material e temporal. Ao mesmo tempo que o leitor realiza
um processo redutor, ao compreender o significado de uma determinada
placa ou inscrição, se impõem a ele outros
textos de características visuais singulares que o impelem
para além dos significados pragmáticos.
Tomando
emprestadas as idéias de Bergson sabemos que o corpo necessita
de tempo para responder aos estímulos do mundo. Quanto mais
curto é o tempo para a devolução destes estímulos,
mais mecânicas serão as respostas. Por outro lado,
quanto mais distendido o tempo, mais elaboradas serão estas
respostas. A partir de elementos que bloqueiam a ação
imediata, a percepção é liberada e somos capazes
de ultrapassar o objeto percebido e alcançar, progressivamente,
outras camadas da realidade. Os fracassos de reconhecimento deslocam
o sujeito para um estado de suspensão onde o prolongamento
sensório-motor é momentaneamente interrompido para
situá-lo no campo das potencialidades, do possível,
do virtual. Ao desacelerar (ou muitas vezes ao bloquear) o acesso
imediato ao seu conteúdo, a ilegibilidade da tipografia popular
coloca seu leitor em um estado de suspensão, possibilitando
percepções outras, diversas de seus conteúdos.
O fazer
tipográfico, de acordo com o designer Bruce Mau, está
fundamentalmente relacionado à idéia de dar forma
ao tempo (“shaping time”). Dentro do universo das letras
o que dá forma à nossa leitura (e ao nosso tempo de
leitura) é a tipografia. Se temos na atividade da leitura
a concentração de nossos esforços na atenção
cognitiva –quando lemos nossa atenção se direciona
principalmente para o conteúdo do que estamos lendo–
temos, concomitantemente, uma outra atenção, a atenção
associativa, que está li¬gada à percepção
dispersa nos cinco sentidos. Se na tipografia clássica a
arbitrariedade do signo lingüístico nos faz buscar o
significado de um determinado texto sem que nos atenhamos à
forma da letra, é justamente com a inversão deste
movimento que o ilegível institui uma nova temporalidade
à leitura. A tipografia popular subverte a hierar¬quia
das atenções surgindo como um signo opaco, onde os
significados não estão apenas em sua ligação
com a linguagem formal, mas constituem-se a partir da própria
materialidade de suas formas. O potencial de sentido da tipografia
popular é catalizado no leitor pela fricção
entre suas referências e o que lhe apresenta. A instabilidade
formal retarda a passagem do significante para o significado, fazendo
emergir múltiplos sentidos para textos como “campainha”,
“garagem” ou “cuidado com o cão”.
Distante da possibilidade de voz nos meios de comunicação
de massa encontramos nestas inscrições polifônicas
vestígios de presença na paisagem esvaziadas das cidades.
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