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>> OBS.: A crônica abaixo foi escrita por Bernardo Carvalho e publicada em seu blog: http://rawsocket.org/rtfm/ . Vale a pena conferir ambos.
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Eu
aprendi a acreditar, durante o curso da minha vida, que em boca
fechada não entra mosca, a palavra é de prata e o
silêncio é de ouro, quem fala muito dá bom dia
a cavalo e {insira seu ditado favorito sobre a importância
do silêncio aqui}. Imagino que o principal motivo para isso
seja o meu background cultural/antropológico/genético
nas Minas Gerais, onde a tradição reza que "aquele
que fala primeiro leva tinta/paga a conta/lava a louça/é
eleito síndico".
O
motivo número dois é uma predisposição
a ter opiniões controversas pelas quais eu sinto um certo
orgulho mórbido e infantil, e como todas as coisas das quais
você se orgulha mórbida e infantilmente, elas tendem
a propalar-se aos quatro cantos. Logo, depois de levar muita tinta,
pagar várias contas, lavar pias e mais pias de louça
e ser eleito síndico de prédio atrás de prédio,
descobri que seria bom fechar a matraca e guardar minhas convicções
para mim mesmo.
(Regra
que eu NÃO sigo neste blog*, a propósito.)
Uma
das teorias que eu tenho é sobre como a sociedade humana,
ao evoluir, perdeu um dos componentes essenciais de uma comunidade
ecologicamente bem-ajustada: a Seleção Natural - assim,
em letras maiúsculas, aquela que nos ensinou o tio Darwin.
A
Seleção Natural é simples: ela nivela por cima.
Quem ultrapassa um certo limiar, tem menos chance de terminar no
estômago de um predador e, por consequência, uma possibilidade
maior de passar sua carga genética adiante e gerar bebezinhos
que provavelmente também vão ultrapassar a média
com facilidade. Quem não ultrapassa, tem uma bela probabilidade
de virar o almoço de alguém antes que tenha a oportunidade
de fazer seus próprios bebezinhos. A cada geração
os limiares vão aumentando, porque os predadores também
são obrigados a passar pelo mesmo processo, e o sistema evoluiu
lenta e constantemente.
Só
que, claro, a Seleção Natural é para animais.
É um processo inclemente e acontece sem direito a choro,
vela, tapetão ou repescagem. Quando você tem uma matilha
de lobos bufando no seu cangote gritando "perdeu playboy"
não dá para negociar. É entregar pra Deus e
torcer para morrer rápido.
Portanto,
nós humanos negamos o processo e protegemos aqueles que nitidamente
estão abaixo do limiar.
A
sociedade ocidental tenta balizar-se por modelos ideais de inclusão,
tolerância e respeito e todos são bem-vindos. Só
que tem horas que você deseja que o contrário aconteça.
Só um pouquinho.
Veja
bem: não estou falando que eu sou o fodão-que-se-garante
e tal. Míope e padecendo de um sério caso de déficit
de atenção, dentro de estritas regras darwinistas,
eu sou totalmente unfit. Na savana, o gnu míope com déficit
de atenção vira janta.
Mas
voltando ao assunto. Ontem eu estive no Santos-Dumont. O aeroporto.
Saindo, descobri-me sem nem um tostão. Lembro-me então
de um caixa do Itaú dentro do terminal e vou até lá,
só para encontrar uma cena dantesca. Uma senhora de seus
trinta e tantos, dando um chilique em um daqueles telefones que
ficam pregados no caixa. "A máquina engoliu meu cartão,
a máquina engoliu meu cartão, meu dinheiro, o que
eu vou fazer agora", berrava ela repetidamente, não
dando a impressão de que havia alguém do outro lado
porque o throughput verbal indicava claramente um monólogo.
Intercalava e pontuava as frases com tapaços e "who's
your daddy"s no pobre caixa automático. Eu, como tenho
nojo de barracos, vazei pensando "foda-se, tiro dinheiro em
outro lugar".
No
caminho para o carro, depois de andar quase cem metros, um dilema:
meu carro está parado no estacionamento. Eu tenho que pagá-lo.
Não tenho dinheiro. A única solução
é voltar novamente ao caixa e torcer para o barraco ter se
dissipado. Voltando pelo estacionamento em direção
ao terminal fiquei pensando nas alegações da mulher:
"essa máquina engoliu meu cartão". Veja
bem, a maquina do Itaú não tem como engolir seu cartão.
Durante o uso, em nenhum momento ela prende o cartão. Ele
sequer entra na máquina. Ela pede que você enfie o
cartão no slot e retire rapidamente, e ele fica com você.
A máquina não retém o cartão nem por
um segundo. O use case "máquina prende cartão
do usuário" simplesmente não existe e não
foi previsto porque é uma impossibilidade técnica.
Ai
a ficha caiu: "Essa mulher enfiou o cartão em alguma
outra ranhura da máquina e ele caiu lá dentro".
Incrível. Fiz um pequeno mapa mental da máquina do
Itaú. Slot de cartão posicionado no canto superior
direito, quase na altura dos olhos, ao lado da tela, um lugar nobre,
indicado "Insira seu cartão" or something. Abertura
por onde efetuar depósitos posicionada no canto inferior
esquerdo, abaixo da linha da cintura, próxima ao respectivos
envelopes e devidamente demarcada "Insira aqui o envelope de
depósito".
Foi
nesse momento que senti que alguém me acompanhava. Olhei
para o lado e um simpático senhor de barbas longas caminhava
junto de mim, em meio ao caos dos táxis em frente ao passeio
do Santos-Dumont. Envergava um elegantíssimo terno de tweed,
coisa cara, e levava pela coleira um pequeno cachorro.
-
Olá Bernardo, que prazer encontrá-lo em uma noite
tão maravilhosa.
- Desculpa, mas quem é o senhor?
- Meu Deus, onde estão meus modos. Eu sou Charles Darwin,
naturalista, botânico e biólogo a serviço de
Sua Majestade. E este é o Beagle.
- Au.
- ...
- Não fique em silêncio, young man. Qual o problema?
- Desculpa?
- Por que você me chamou aqui?
- Não, você se enganou, eu...
- Foi a mulher do caixa eletrônico não foi? - Coça
a barba e olha para cima, como se buscasse algo do fundo da memória
- Ah sim, eu posso ver, oh por Júpiter, a mulher realmente
enfiou o cartão no slot dos envelopes de depósito
como você deduziu. E você tem razão.
- Sério?
- Incrível, ela está sozinha numa cidade estranha,
sem dinheiro e enfia o cartão do banco no buraco errado.
Tsc, tsc. E você tem razão.
- Desculpa, você já disse isso.
- Não, você tem razão sobre a outra coisa.
- Qual coisa?
- Na natureza, quando você enfia o seu cartão de banco
no buraco onde está escrito claramente "Envelopes de
Depósito", nessa hora você é comido pelos
predadores.
Ele
parou de andar. Estávamos no saguão central do terminal,
a alguns metros do caixa eletrônico. Pousou a mão novamente
em meu ombro e o cachorro deitou no piso de mármore.
Eu
imaginei que por agora o barraco estaria terminado, mas claro que
não. Aumentou. Agora havia quatro ou cinco populares cercando
a máquina, a dona dando um chilique sozinha, um homem segurando
o telefone com uma cara desolada, esperando por algum atendente
insatisfeito com seu emprego, de plantão num domingo à
noite. Os outros comentavam entre si sobre casos semelhantes: "ah,
uma vez lá em Macaé a máquina também
engoliu meu cartão" "não diga" "que
horror".
O
velho me puxou para mais perto e continuou:
-
E quando isso acontece na natureza, meu caro Bernardo... quando
você enfia seu cartão de banco no buraco errado e outros
cinco param para ver o que está acontecendo, assistir à
cena e matar o tempo, sabe qual é o nome que dão a
isso?
- Não...
- Um banquete.
Foi
aí que surgiram os quatro tigres. Passaram correndo pela
porta por onde tínhamos acabado de entrar e seguiram naquele
galope felino até o saguão central. Você leu
direito: tigres de bengala, mamíferos carnívoros com
presas e garras, em pleno Santos-Dumont. As pessoas ao redor do
caixa eletrônico gritaram desesperadas, mas era tarde. As
feras pularam sobre elas e sangue esguichou por todos os lados.
Fiquei paralisado ali com vontade de vomitar - quando fazia menção
fugir era preso ao chão pela mão firme do cientista
em meu cangote. Não tinha alternativa a não ser assistir
ao pequeno grupo ser desmembrado em meio a rugidos e gritos de desespero
e patinando em uma piscina de sangue que se formava no chão.
O cachorro, ainda deitado, assistia à cena com um ar de tédio.
Charles
Darwin acompanhava o festim com um ar de satisfação
e uma ponta de algo que parecia nostalgia. Suspirava, às
vezes. Olhou para mim e disse:
- Às vezes eu penso se a natureza não deveria sempre
simplesmente seguir seu curso.
- Erm... ahn... Deus do céu!
- Sob um determinado ponto de vista, a Seleção Natural
é um processo mais humano, sabe?
- Mas elas... oh, não, que HORROR!
- Com um pouco de sorte, essas pessoas ainda não procriaram
- e toda violência não foi em vão.
- E... meu Deus, alguém, faça alguma coisa...
- Só que não é este o caso, certo? Vivemos
sob outras regras.
- Sim, mas... mas...
Agora
os tigres banqueteavam-se dos corpos espalhados. Exceto pelo barulho
de mastigação e o ocasional rugido de satisfação,
o silêncio era absoluto. Nesse momento eu já havia
coberto meus olhos e assistia à cena pelas frestas entre
os dedos.
-
Ah, é uma pena - suspirou novamente o cientista.
Fez
um floreio com a mão e os tigres desapareceram e a cena voltou
ao ponto onde estava antes.
Lá
estava a mulher dando seu chilique. Lá estava o pobre diabo
com cara de desalento ao telefone.
Lá
estavam os outros matando o tempo e conversando fiado. Não
havia mais sangue.
-
Deixo essa para você.
Deu
um tapinha em minhas costas e saiu, levando seu cachorro. O berreiro
da mulher estava mais alto. Agora ela chutava a máquina e
nenhum dos populares parecia repreendê-la, ao contrário.
Fui
tomado por uma absurda saudade dos tigres.
-
Oi! Senhor! Mr. Darwin!
Ele
olhou para trás:
-
Desculpe-me, rapaz, mas tenho uma avião para pegar.
- Au.
E
sumiram entre filas de passageiros e carrinhos de bagagem.
Com
um suspiro, andei em direção ao grupinho. Pedi licença
e perguntei qual o problema. A mulher, em altos brados, bateu várias
vezes no slot de envelopes de depósito gritando, pela bilionésima
vez, que a máquina tinha engolido seu cartão. Eu disse:
-
Minha senhora, esse buraco não é para cartões.
Esse buraco é para envelopes. A senhora enfiou o cartão
no buraco errado. Vai até aquele guichê de informações
ali e descobre como entrar em contato com o pessoal do Itaú,
porque alguém vai ter que abrir essa máquina e tirar
o cartão da senhora de dentro do container de depósitos.
- MAS ISSO NÃO É PROBLEMA MEU! A MÁQUINA ENGOLIU
MEU CART...
- Se a senhora me der licença, eu gostaria de sacar dinheiro.
- AH MAS...
E
ficou parada ali me vendo enfiar o cartão no slot correto.
Na tela de entrada da senha eu olhei para ela parada ali do meu
lado.
-
Então? Você ainda não foi?Ela
girou nos calcanhares e saiu batendo os pés até o
guichê de informações onde certamente ia fazer
a vida de alguém mais miserável naquele domingo à
noite. Malditos tigres. Ou benditos tigres, não sei. Olhei
para o outro lado e o grupelho que estava torcendo pela mulher já
havia desaparecido há muito. O telefone pendia pelo fio,
ainda balançando.
Saquei
meus vinte reais e caí fora. Com um idéia fixa de
iniciar uma pequena criação de tigres.
* Este
texto foi originalmente publicado no blog do autor: http://rawsocket.org/rtfm/
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