(Este texto foi revisado e atualizado em 22/8/2005)
Na
literatura, a supressão das fronteiras entre a palavra e
outros elementos semióticos como as imagens deu seus primeiros
passos em diferentes épocas da história, no mais das vezes épocas distantes (e sem relação) entre si. Mas foram
as vanguardas do início do século passado que efetivamente
colocaram em marcha a profusão de obras que solaparam irreparavelmente
as condições estanques e limitadas do verbo enquanto
objeto artístico.
Essa desconstrução da poesia e da
prosa enquanto instituições canônicas lineares
e puras se deu de forma ruidosa, embora processual e em lugares
pontuais. Na virada do século XIX para o XX surgem as imagens-poemas
sem textos de Mallarmé e Apollinaire, seguidos por apelos
vanguardistas como o manifesto futurista russo de Khlebnikov, Burliuk,
Krutchenik e Maiakovski em que se estabeleceu uma tentativa de resolver
o problema da combinação da fala e da tipografia através
de associações entre vogais-tempo-espaço e
consoantes-cores-sons-tato.
No Brasil, o movimento modernista paulista não
deixa as transformações que se propagam por todos
os campos da arte européia passar em branco. Em seu "Prefácio
Interessantíssimo", texto que abre A Paulicéia
Desvairada, Mário preconiza uma poética de cunho harmônico
e menos lírica: “...palavras sem ligação
imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo de não
se seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem uma
às outras, para nossa sensação, formando, não
mais melodias, mas harmonias.” Assim, o poeta busca se afastar
de preceitos enraizados na poética de autores românticos
como Basílio da Gama, Gonçalves Dias e José
de Alencar, que o que precederam. Busca o rompimento completo com
a rima e os padrões do verso e o entrelaçamento com
uma plasticidade menos evidente, mais sutil e mais complexa.
No início dos anos 50 assiste-se ao surgimento
da poesia concreta, emergida na Suécia no manifesto do artista
Övind Fahlström. Nestes poemas de grande apelo visual,
palavras com intensa força semântica e frases com sintaxe
usual alterada, dispostas como objetos visuais tipográficos
em diálogo com o branco da página, e às vezes
fundidas com imagens exteriores ao universo da linguagem verbal,
irrompiam em um todo poético.
A partir da década de 60, o desejo de transgressão e, ao mesmo tempo,
a estima ao livro, sentimentos tão naturais ao artista-poeta,
leva à experimentação extrema com a produção,
principalmente , dos "livros
de artista"*. Nestes livros o criador se equilibra em algum
ponto por ele eleito entre o respeito às normas tradicionais
de apresentação do objeto livro e a ruptura ou transgressão
a essas normas.
( O conceito de "livro de artista" não está - segundo nos mostra Paulo Silveira, autor de "A página violada: da ternura à injúria na construção do livro de artista" - claro para os estudiosos. Esses livros, segundo Silveira, se enquadrariam em duas categorias: 1, das "peças múltiplas, impressas, de construção conivente com a tradição, embora isso necessariamente não ocorra". E 2, dos "livros-objetos propriamente ditos, normalmente peças únicas, fortemente artesanais ou escultóricas, tendentes para o excesso, muitas vezes se comportando como metáforas ao lirvo, ou ao conhecimento consagrado, ou ao poder da lei".)
Indo mais além, pode-se apontar uma forte
inclinação, ainda em meados do século XX, por
parte do artista-poeta de transcender o livro fisicamente, de intencionar
uma configuração gráfica do ato poético
também em outros suportes, indo além da quebra das
barreiras da mistura sígnica. Diferentemente dos "livros
de artista", esses objetos não apresentariam, nem mesmo
metaforicamente, uma relação com o objeto livro, senão
pelo uso do verbo.
A literatura e a tecnologia
Sabe-se bem que o domínio da técnica
esteve desde o início diretamente ligado à nossa necessidade
enquanto humanos de aquisição da função
simbólica plena, ou seja, aperfeiçoamento da capacidade
de mediar a realidade com uma teia simbólica (a linguagem
verbal, por exemplo) – e é exatamente isso que nos
distingue das demais espécies. Também conhecemos a
imanente relação, que desde sempre se fez presente,
entre a tecnologia e a produção artística.
Entretanto, esse entrelaçamento naturalmente se intensificou
e se complexificou nos últimos dois séculos com o
intenso desenvolvimento tecnológico.
As transformações se dão nos
campos da fotografia, do cinema, da música - nos anos 50
e 60, com o advento dos estúdios eletroacústicos e
as experimentações de Henri Chopin e François
Dufrene - ou das artes plásticas - quando, por exemplo, Andy
Warhol usa a técnica da serigrafia ou da tela de seda, para,
ironicamente, vender em larga escala seus cartazes portando “reproduções
da reprodução”.
A tecnologia da fotografia, por exemplo, produziu intensas
mudanças
na pintura: como dar continuidade aos estudos de aproximação
exata do real – pintura figurativa – se a máquina
fotográfica poderia, enquanto se desenvolvia, ir sempre mais
além na configuração de um real em um suporte
palpável, ou seja, o papel fotográfico?
Assim, as vanguardas artísticas do século
propõem, cientes das necessárias mudanças,
novas propostas e novos pensamentos. No caso da pintura, percebe-se
uma tendência à abstração.
O que se vê no desencadear de eventos
e criações no campo das artes, tanto na modernidade
das vanguardas quanto na contemporaneidade é uma irrevogável tendência
diacrônica na direção da fusão, quebra
de limites e inclusão de ruídos e interferência;
o artista, sensível às mudanças agudas - nos
campos das ciências, comunicação e tecnologia
- pelas quais passa a humanidade no século XX, se sente compelido
a se reconfigurar enquanto peça atuante no tabuleiro social,
artístico e cultural. As forças motrizes tecno-científicas
produziram mudanças que vão desde a obliteração
do ordenamento racional do espaço-tempo, da lógica
cartesiana e das verdades absolutas até a abertura, nas artes,
para influências científicas e tecnológicas. Enquanto o cientista cria, repensa, inova, a arte passa
a experimentar novos padrões estéticos, novos materiais,
novas tecnologias, novas linguagens.
Hoje, a produção de conhecimento,
a produção artística, as qualidades comunicativas
e as codificações do imaginário do homem se
acham fortemente marcados e pautados por elementos da escrita, interatividade,
imagem estática, imagem em movimento e som que, no decorrer
do século XX integraram uma convergência que tem aparentemente seu momento mais pleno com a rede telemática,
a interação virtual e as tecnologias a ambas vinculadas.
As ferramentas de software que surgiram com o advento
do cibertexto revelaram inúmeras novas possibilidades, condicionadas
por mudanças paradigmáticas do século
XX, para a criação no campo das artes digitais e analógicas.
Nela e a partir dela também vimos progredir novas formas de sociabilização
e interação marcadas por uma contínua intensificação da hibridação
(que teve início com o surgimento dos meios de comunicação em massa) de valores sociais, econômicos, políticos, geográficos,
religiosos, estéticos e éticos.
Nesses sentidos a rede telemática apenas atualiza um ideal
virtual quase que consensual das artes de vanguarda e experimental
do século XX, ou seja, ela torna não só possível mas natural serem
realizados, de uma só vez, desejos de maleabilidade em relação
ao suporte (deslocamento), interação mais acentuada
do recebedor (que agora, mais do que nunca, pode também ser
co-criador) e maiores possibilidades de miscigenação
e fragmentação sígnica.
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