Quais
são as posições e estratégias de ação
das grandes empresas da infotelecomunicação de massa
em relação a algo que é amplamente previsto:
o futuro da comunicação através de aparatos
tecnológicos deve passar a contar, de forma ainda pouco definida,
com o suporte Internet e, naturalmente, com o sistema operacional
de um computador. Isto é, há uma forte tendência
de "cibernetização" mais ou menos radical
de meios como a TV, o vídeo, o rádio, o livro e as
artes e produções jornalísticas em geral. Não
se sabe com quais intensidades essas mudanças ocorrerão,
nem se esse novo meio integrado acarretará no fim de outros,
mas elas a cada dia estão mais próximas e palpáveis.
Por download de dados digitais na rede (mais rápida) em países
como a Suécia pode-se, em tempo real, comprar filmes, músicas,
livros (e-books), ouvir rádios, assistir a desenhos animados,
e um vasto etc. A tendência é que, com as tecnologias
que a cada dia se sofisticam, seu PC se torne um grande centro de
mídia. Segundo pesquisa da Online Publishers Association,
hoje um jovem americano de idade entre 18 e 34 prefere navegar na
Internet (46%), a assistir a TV (35%), ler um livro (7%), ligar
o rádio (3%), ler um jornal (3%) ou folhear uma revista (menos
de 1%).
O multi-facetado David Bowie soltou a bomba recentemente em entrevista
à Folha de São Paulo: "... acho que a indústria
está desmoronando. Acho que as gravadoras estão falindo.
Honestamente, não acredito que elas sobrevivam muito mais
que três ou quatro anos. A ênfase será para shows,
mais que qualquer coisa, e a música em si e a distribuição
de música vão sofrer uma mudança tão
radical que não vamos mais pensar nelas do mesmo modo."
E essa mudança sabemos o que é: as gravadoras, assim
como outras empresas da mídia, vão ter que utilizar
a rede digital para distribuir seus produtos, e que estejam preparados:
a redistribuição destes arquivos digitais não
pode ser impedida, ou seja, pelo menos uma parte expressiva desses
arquivos serão livremente redistribuídos. Se alguém
desenvolve uma tecnologia que entrava a cópia, aparece um
grupo de hackers dedicados e a destravam. Que o diga DVD John (John
Lech Johansen), programador norueguês que criou o código
que anula a proteção anti-cópia do DVD.
As dificuldades técnicas de controle sobre arquivos digitais
são muitas. A verdade é que essas colossais empresas
da infotelecomunicação vêm tendo e vão
ter, cada vez mais, que lidar com certos princípios regedores
da WWW com os quais não estão habituados, a saber:
a fraca demarcação de territórios, democracia
no acesso e produção da informação,
abundância de diversidades, descentralização,
imprevisibilidade, reprodutibilidade etc.
Faço parte do grupo que acredita que investimentos em tecnologias
que entravam a cópia (a DRM – digital rights management
-, patrocinadas pela Warner e pela Microsoft, é um bom exemplo)
não levarão a uma solução. Faz-se, sim,
necessário uma urgente e profunda revisão legal e
conceitual no que concerne à cópia e distribuição
de material digital no mundo hoje, juntamente de um reajustamento
de estratégias mercadológicas. Pois, como nos diz
o teórico Arlindo Machado, "Meios avançadíssimos,
que operam com informação virtual e se prestam à
difusão ampla, se apóiam, muitas vezes, em valores
institucionais arcaicos, tais como os de propriedade intelectual
(direito autoral), propriedade privada da informação
e sigilo dos dados armazenados...".
A cópia faz parte da vida digital e em rede; é uma
ação quase que intrínseca aos meios contemporâneos.
Benjamin já dizia: "fazer as coisas 'ficarem mais próximas'
é uma preocupação tão apaixonada das
massas modernas como sua tendência a superar o caráter
único de todos os fatos através de sua reprodutibilidade.
A cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir
o objeto, de tão perto quanto possível (...), na sua
cópia, na sua reprodução".
O curioso é que são empresas como a Microsoft que
propiciam a cópia e a redistribuição de dados
com as próprias tecnologias que desenvolvem. Recentemente,
por exemplo, Bill Gates e sua equipe lançaram no mercado
o Windows XP Media Center Edition 2004, que, entre outras façanhas,
permite gravar programas da TV! A Sony produz artistas, exige respeito
aos direitos e, sem constrangimentos, fabrica computadores pessoais
equipados com software e hardware para se gravar CDs e DVDs.
A Web e sua descentralidade nos oferecem oportunidades únicas:
que o conteúdo rico e pequeno conviva lado a lado com o conteúdo
pobre e massivo da grande indústria de mídia; que
a informação chegue de maneira rápida, barata
e fácil a qualquer lugar a qualquer hora. Uma interferência
nessa nova lógica cibernética de produção
de informação e conteúdo é possível,
porém complexa e trabalhosa; exige que nós telespectadores/interagentes/usuários
permitamos.
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